1. IDENTIFICAÇÃO DA INSTITUIÇÃO
A Congregação das Irmãs de
São João Batista e Santa Catarina
de Sena – Medéias, fundada, por Medéia
Camila Ghiglino Pattelani, filha de Domenico Ghighini,
nascida em Gênova, Itália no ano
de 1559, no bairro Santa Maria das Graças
do Molo, era de uma família antiga e profundamente
religiosa. Medéia era uma mulher conhecida
e estimada em seu ambiente e por isso requisitada
por muitas famílias, seja de renome social
ou popular, para ser madrinha de batismo de seus
filhos. Segundo o costume daquele tempo com dezessete
anos, aos treze de dezembro de 1576 casa-se com
Giulio Pattelani, de família nobre, influente
na sociedade genovesa e muito religiosa. Em primeiro
de julho de 1586, morre o marido, Medéia
fica viúva e sem filhos.
Medéia se coloca naquela metade do século
XVI, definido pelos historiadores, século
dos genoveses. Para Gênova, é de
fato um tempo de tranqüilidade econômica,
e com ela era difuso o desejo de abrir-se a cultura
e a espiritualidade.
A estrutura social sob a moderna forma dos albergues,
providenciava convenientemente, as massas de pobres
presentes naquela cidade portuária, o necessário
sustento.
A mulher não tinha ainda um conveniente
espaço social sendo deixada a margem da
vida e da cultura da sociedade. Este problema
era particularmente crucial devido a questão
dos dotes, as quais aumentavam sempre mais, fazendo
com que as famílias só pudessem
permitir levar ao casamento uma filha e as outras
eram obrigadas a se tornarem monjas.
A religiosidade era muito forte em Gênova
pela presença de quase todas as ordens
religiosas existentes na Igreja, e isso compensava
a carência seja de cultura que de espiritualidade,
por parte do clero diocesano.
Um evento muito importante foi a chegada a Gênova
dia 05 de outubro de 1554 de oito jesuítas
enviados por Inácio de Loyola por solicitação
dos procuradores do senado da República,
para fundarem um colégio. Estes se estabeleceram
no mesmo bairro onde morava a família de
Medéia, ou seja, em Santa Maria das Graças
do Mollo.
Desde o nascimento Medéia pode respirar
um clima de autêntica espiritualidade inaciana,
pois os jesuítas enviados a Gênova
eram do grupo dos primeiros companheiros de Inácio,
os quais tinham aprendido diretamente dele a genuinidade
do carisma.
Outro elemento significativo para o tempo, foi
a celebração do Concílio
de Trento, que deu a Igreja uma nova vitalidade
com retorno as origens da vida cristã,
mediante o impulso à catequese.
Antes de Medéia ficar viúva, havia
feito um caminho espiritual segundo o método
dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio
sob orientação do jesuíta
Padre Bernardino Zanoni que chegou em Gênova
em 1580 proveniente do seminário de Milão.
Em 1587 Medéia já era uma experiente
orientadora dos Exercícios Espirituais
ao ponto que Bernardino Zanioni lhe enviava pessoas
para que fossem orientadas na prática da
oração mental. Neste período
Medéia partilha o mesmo caminho com um
grupo de senhoras na Contemplação
dos Mistérios da Vida de Jesus. A sua profunda
experiência de Deus através do Filho
encarnado a impele a sair de si mesma e ir ao
encontro dos irmãos para levar-lhes a salvação.
No estatuto primitivo colhe-se na palavra inspiradora
Jesus Maria. Os mistérios da vida de Jesus,
desde o anúncio a Maria até a morte
na cruz e ressurreição ressoam na
força que Medéia coloca em algumas
expressões que dão a dimensão
simbólica do estatuto:
“Primeiramente viverão em comum todas
as coisas”.(E. P. art. 1º)
“O seu fim principal seja viver perfeitas
servas do Senhor, procurando ser de vida exemplar
e de edificação para todos”.
(E. P. art. 2º)
Emerge claramente a comunidade apostólica
como expressão da face do Deus Trindade.
Tudo é em comum para tornar-se um corpo
bem integrado e harmônico que atua para
a salvação do mundo. Servas –
atraídas pelo servo Jesus que vem entre
os povos para fazer conhecer o Pai, para testemunhar
o seu amor, para que ninguém fique excluído
da salvação pela qual Jesus derramou
seu sangue. Quanto mais o pai é acolhido
pelas criaturas, Maior Glória terá.
Da forte comunhão de vida segue o serviço.
Isto confirma que a comunidade é uma comunidade
para os outros, uma comunidade que construída,
formada, organizada e orientada para a missão.
É uma missão que privilegia a mulher:
“Seu exercício particular seja de
ensinar as meninas a trabalhar e ler, educando-as
no santo temor de Deus”. (E. P. art. 3º)
“Ensinarão nos dias de festa a doutrina
cristã, procurando que suas discípulas
a aprenda”. (E. P. art. 4º)
O caminho sistemático na linha dos Exercícios
Espirituais de Santo Inácio de Loyola ajudou
Medéia a tomar consciência de que
recebera um Dom espiritual perene a ser partilhado.
A forma de vida era diferente daquela existente,
e toda a ser inventada. Isto exigia muita coragem
para aquele tempo em que o concílio havia
emanado normas precisas a respeito.
Para a mulher cristã que desejasse algo
diferente do casamento não restava outra
alternativa senão o mosteiro. Medéia
se sentia depositária de um Dom a ser colocado
a serviço da sociedade do seu tempo, sobretudo
em favor da mulher e da sua promoção.
A experiência até agora relatada
é fundamentalmente eclesial. Amadurece
sempre mais em Medéia e em algumas companheiras
o desejo de ajudar a pessoa compreendida na sua
realidade humana e espiritual que as leva a se
constituírem corpo também sob o
ponto de vista jurídico.
Aos 04 de junho de 1594, Medéia e suas
companheiras constituem comunidade vivendo em
comum todas as coisas, sendo assíduas nos
trabalhos ensinando as meninas a ler e a trabalhar.
2.
MARCO REFERENCIAL
2.1 – Marco Situacional
O
reordenamento geopolítico do mundo em blocos
dissimétricos, suas conseqüências
sócio-econômicas-políticas
e as novas relações internacionais
estabeleceram profundas mudanças. O surgimento
do neoliberalismo, de novos movimentos de caráter
étnico, alteraram a relação
internacional de forças. Na América
Latina, agravaram-se os problemas sociais e as
condições de qualidade de vida,
excluindo grande contingente da população.
O Brasil enfrenta no final década de 90
grandes desafios. Um dos principais é a
falta de um projeto nacional capaz de mobilizar
o conjunto dos brasileiros rumo a uma sociedade
justa e fraterna com bem-estar social para todos.
A elaboração desse projeto por um
lado, vem sendo dificultada pelo crescimento das
desigualdades; pela desmotivação
arraigada em traços culturais que fazem
o povo desacreditar até em suas próprias
capacidades; pela descrença na eficácia
administrativa do governo e na classe política.
Por outro lado, é preciso, ressaltar sinais
de esperança que constituem pontos de apoio
na construção de um projeto nacional
capaz de superar as desigualdades e os privilégios
de parcela da população brasileira.
Uma das características de nossa classe
política dirigente é a visão
imediatista, particularizada e de curto prazo
na solução de nossos problemas.
Por isso, não se tem um projeto nacional
capaz de envolver uma ação abrangente
e de longo prazo. As dificuldades da formulação
de um projeto nacional se devem à falta
de vontade política e ao individualismo
da classe dominante, bem como à precária
organização da sociedade gerada,
sobretudo por mecanismos claros ou ocultos de
desmonte das associações que compõem
a sociedade civil.
No Brasil, há “várias sociedades”,
cada uma com seus conflitos, sem possibilidades
de consenso entre suas classes, com diferenças
fundamentais e antagonismo. Há uma sociedade
moderna, urbana e rural, de importante expressão
econômica, capitalista e desenvolvida; com
sindicatos atuantes e politizados; com bom nível
de organização social; com a mediação
de partidos políticos programaticamente
estruturados.
Há uma outra sociedade, atrasada, espalhada
pelas cidades e pelos campos, desarticulada, com
métodos arcaicos de produção,
com formas feudais e pouca participação
política.
Enfim, configura-se uma terceira sociedade, marginal,
com instituições próprias,
que desconhece as estruturas estatais, que sofre
as influências e o predomínio do
tráfico de drogas, do jogo, da indústria
do seqüestro, do contrabando, com um tipo
de economia refinada e que desenvolve seus serviços
“públicos” sob controle de
elites atípicas.
Projetos, programas e propostas oriundos do poder
público e da elite dirigente civil normalmente,
ou desconhecem essa realidade, ou não a
tomam em suficiente consideração.
Ora destinam-se ao Brasil moderno partindo unicamente
da economia formal capitalista, não fazendo
caso das condições de vida e dos
interesses dos setores marginalizados e atrasados;
ou limitam-se ao Brasil não moderno deixando
de levar em conta uma das economias mais desenvolvidas
com os conseqüentes desafios tecnológicos
que afetam os interesses dos trabalhadores.
Essa situação complica-se com outras
dificuldades no sistema sócio-econômico-cultural.
O Brasil avançou como economia mundial,
mas cresceu a injustiça social e a concentração
de renda na mão de um sempre menor percentual
de pessoas. Isto porque o avanço do neoliberalismo
coloca no centro de tudo a maximização
do lucro. Ao apresentar as leis do mercado como
naturais entroniza o deus da competitividade,
com a conseqüente lógica da exclusão.
Não existe instância internacional
com poder para cobrar da economia de mercado globalizado
e transnacionalizado obrigações
sociais. O poder do mercado se agigantou por causa
da tecnologia da informação que
globaliza a economia. O capital se desloca sem
qualquer ética, para conseguir maior lucro.
O mercado ignora a injustiça social. O
que a sociedade neoliberal distribui aos pobres,
retira deles através de estruturas sociais.
Não renuncia, na vida econômica,
a busca da maximização do lucro
à custa deste mesmo pobre que ajuda.
A lógica do sistema neoliberal, com a respectiva
ideologia da competitividade, da qualidade total,
da produtividade a base de alta tecnologia, implica
na exclusão de mão-obra e, por conseguinte,
do mais pobre e menos preparado. As inovações
tecnológicas descartam os menos capazes
e criam novas formas de gestão da força
de trabalho que excluem até os que não
emprega..
Pela primeira vez desde 1920, quando se realizava
o primeiro censo em nosso país, a taxa
de analfabetismo cresceu no Brasil. Até
1988, o percentual dos analfabetos com relação
ao total da população sempre tinha
decrescido.
A violência e os índices de criminalidade
têm aumentado.
Uma explicação tradicional para
esse aumento se baseava num conjunto de fatores
que iam desde a “tara” do criminoso
até a miséria social. Hoje ao se
colocar em ordem esses fatores, destacam-se dois
principais: a desigualdade social, não
simplesmente a miséria, e a redução
da integração cultural na sociedade
brasileira.
Há também traços culturais
socialmente disseminados que dificultam a construção
de um projeto nacional:
a) complexo de inferioridade originário
do colonialismo político, econômico
e cultural que nos leva a uma radicalização
negativista político-ideológica,
colocando-nos numa situação de incapacidade
diante dos desafios;
b) a ideologia de “levar vantagem”
que nos impede de aceitar as regras do jogo e
que nos leva a dar um jeito, em benefício
próprio, mesmo que para isso seja necessário
passar por cima dos direitos e interesses alheios;
c) a visão inigualitária da sociedade,
segundo a qual uns nascem para mandar e possuir,
e outros para obedecer e trabalhar. A desigualdade
é assim considerada como fatalidade e não
como produto da ação humana;
d) desinteresse pela organização
da sociedade civil;
e) a alienação em torno de ideologias
e marcas consumistas;
f) predomínio da ética privatista
com a quase ausência do espírito
público. Na organização social
predomina o individualismo e os interesses familiares.
O estado é visto como dispensador de benefícios
e vantagens aos particulares. A República
é uma fazenda privada. Fortalece-se o corporativismo
como organização segmentada de categorias
e grupos sociais que só conseguem ver os
próprios interesses, desconhecendo quase
que por completo o bem comum;
g) a expectativa do milagre, que leva o povo à
espera do líder, dos planos, dos políticos
e das instituições para resolver
os problemas. É-se, então, objeto
e não sujeito do processo histórico;
h) a confiança crescente na eficácia
da violência como um meio para a solução
dos problemas sociais. Prefere-se o castigo imediato
do infrator, ao caminho mais longo da persuasão.
Louva-se o governante “machão”
e confunde-se a truculência política
com a eficiência administrativa;
i) a administração pela habilidade
em vencer na vida, de modo fácil e rápido,
levando ao desprezo pelo esforço do trabalho;
j) a aceitação da corrupção
como algo natural no exercício do poder
público e no manuseio das riquezas da nação;
k) a agressão às diversas formas
de vida, configurando uma cultura de morte, vista
como solução para graves problemas
sociais.
É
generalizada a descrença nos governantes.
Vários são os motivos que têm
levado a este fenômeno. Certamente, o principal
é a falta de probidade, eficácia
e eficiência administrativas. Os recursos
votados na Constituição Federal
que não estão chegando à
educação pública têm
colaborado para o seu deterioramento. Escândalos
de gastos financeiros inúteis, sistema
econômico-administrativo que penaliza os
assalariados, pequenos e médios produtores,
levando a maioria da população a
uma situação de desespero. Na lógica
do plano de estabilização econômica
não há espaço para o mercado
informal. Há favorecimento aos atravessadores
e especuladores, por parte do poder público.
Forte motivo de descrença encontra-se na
falência dos serviços públicos
às classes empobrecidas. O povo, no seu
dia-a-dia, vive a dura experiência de não
encontrar solução para seus problemas
de saúde, educação, emprego,
transporte, abastecimento de água, moradia
e alimentação. Deste modo não
conseguindo responder, adequadamente, às
necessidades básicas da população,
o Governo perde a credibilidade e se desmoraliza
perante a Nação.
O povo não acredita e nem confia em seus
líderes políticos. Há uma
crença generalizada de que os políticos
se enriquecem às custas do dinheiro público
e procuram arrumar a vida de seus amigos e parentes,
em vez de fazer leis justas, em favor do povo
e fortalecer o bem comum.
Buscando uma explicação para a realidade
descrita, talvez, se possa afirmar:
a) Brasil situa-se na periferia e na dependência
de uma gigantesca engrenagem internacional montada
para preservar os interesses de manutenção
e expansão do capitalismo. Sobre esse não
pesa hipoteca ou responsabilidade social, o que
leva, freqüentemente, a se instalar nos países
empobrecidos para alimentar os contrastes em detrimento
dos reais interesses dos mesmos países
em vez de beneficiá-los;
b) uma concepção demasiado limitada,
ou seja, predominantemente econômica, do
desenvolvimento, sem dúvida, pode explicar,
ao menos em parte, as grandes contradições
da realidade existente;
c) as elites brasileiras que sempre estiveram
no poder, de costas para o povo e abdicando a
soberania nacional, não tem revelado um
interesse real em colaborar nos processos democráticos
internos dificultando a possibilidade de construção
de um projeto social nacional mais amplo além
de, solicitamente, defenderem os interesses dos
países do primeiro mundo;
d) a pouca e frágil organização
da sociedade civil também pode ajudar a
explicar a realidade acima descrita.
Convém
ressaltar alguns sinais de esperança que
apontam para uma transformação da
realidade brasileira:
a) reconhecimento da dignidade da pessoa humana
e do valor único de cada indivíduo.
Há esforços na promoção
dos direitos humanos e na busca de agilização
da justiça em defesa dos mais pobres e
fracos;
b) empenho no resgate da consciência da
cidadania brasileira;
c) a elevação do nível de
consciência crítica e de participação
política de pessoas e grupos sociais;
d) aprofundamento do sentido da festa, da partilha
e da gratuidade, que contrasta com o espírito
de ganância e de lucro, a qualquer preço;
e) fortalecimento e avanço da democracia
participativa, com pessoas e grupos saindo da
passividade e da resignação, unindo-se
em associações de classe, movimentos
populares, assumindo as mais variadas formas de
solidariedade;
f) a valorização das diversas “culturas
regionais” que ajuda a superar o isolamento
e o fechamento de grupos e propicia intercâmbio
frutuoso entre eles;
g) a descoberta do verdadeiro sentido da política
como serviço ao bem comum, que viabiliza
um engajamento que supera os limites dos próprios
partidos políticos;
h) a busca de novo equilíbrio entre os
três poderes da República, fortalecendo
o legislativo como garantia dos direitos do povo;
i) a descentralização deslocando
para os estados e municípios o exercício
do poder;
j) a busca de redefinição do papel
do Estado na economia e de seu relacionamento
com a iniciativa privada;
k) a abertura para os países da América
Latina no esforço de descobrir e assumir
o destino comum que nos aproxima e que nos impele
a buscar soluções conjuntas para
nossos problemas;
l) os esforços para que o MERCOSUL se abra
para as perspectivas sociais e culturais, não
se limitando às econômicas;
m) assumir as descobertas da ciência e da
tecnologia para superar os problemas que afetam
a maioria da população;
n) aprofundamento da questão ecológica
que desmascara a índole perversa de determinados
modelos de desenvolvimento.
Nas
últimas décadas, vastos segmentos
da sociedade têm lutado por uma nova ordem,
mediante a multiplicação de movimentos
sociais (Movimentos dos Direitos Humanos, Ecológico,
de Mulheres, de Meninos e Meninas de Rua, de Negros,
de Indígenas, dos Sem-Terra) e o fortalecimento
de um sindicalismo politizado e atuante. Ao lado
disso, surge o fortalecimento de instituições
civis e organizações sociais, assim
como a consciência de cidadania ética,
bem como uma crescente atenção aos
valores do meio-ambiente.
Tudo isso expressa o esforço na recuperação
da cidadania coletiva e na retomada da mobilização
popular.
No que se refere ao campo religioso, e mais especificamente
à Igreja Católica, observamos quem
depois de cinco séculos de pregação
do Evangelho pelas Igrejas Cristãs podemos
afirmar que o povo latino-americano assumiu atitudes
práticas cristãs. Nelas há
mescla de fatalismo, de sincretismo, de superstições,
de crendices, coexistindo com os fundamentos da
fé cristã.
Dos anos 50 para cá, avanços notáveis
podem ser constatados no movimento de renovação
eclesial. O Concílio Vaticano II, Medellín,
Puebla e Santo. Domingo possibilitaram uma nova
consciência, que influenciou em diversas
práticas, na formulação da
Teologia da Libertação, no aprofundamento
dos conhecimentos bíblicos em chave de
libertação, no maior envolvimento
dos leigos na vida eclesial, na fé mais
comprometida com a transformação
social, na vivência da educação
libertadora e na ampla atualização
de métodos e organização
pastorais.
No entanto, a esse período de abertura
para o novo, de avanços na pastoral orgânica,
parece suceder um retorno à “grande
disciplina”, que vem criando conflitos e
tensões dentro da Igreja.
Teólogos profissionais, intelectuais leigos,
trabalhadores conscientes, religiosos e religiosas
assumem corajosamente a luta pelas transformações
sociais. Constata-se, no entanto, o retorno à
intolerância e à intransigência
em matéria teológica. Por outro
lado, percebe-se o fortalecimento e a expansão
de novos movimentos religiosos, da chamada igreja
eletrônica e dos movimentos carismáticos
numa linha diametralmente oposta.
Apesar de tudo, há um horizonte de esperança
com a melhor articulação das CEBs,
com ecumenismo das bases, com movimento bíblico
na linha da libertação e com a juventude
acordando diante da necessidade de participar
na vida pública e eclesial.
Os últimos anos do nosso século
estão repletos de fortes apelos missionários.
Há uma nova onda missionária nos
interpelando.
2.2 Marco Doutrinal
2.2.1 A Sociedade que queremos ajudar
a construir
Optamos por uma sociedade fundamentada na dignidade
da pessoa humana e que tem como meta a comunhão
social; escolhemos como caminho o processo de
libertação: reconhecemos e acolhemos
o fraco, o pequeno, o excluído como sujeito
de seu processo histórico, de seu próprio
desenvolvimento social e portanto, optamos por
uma sociedade economicamente justa, socialmente
eqüitativa e solidária, politicamente
democrática, culturalmente plural e religiosamente
ecumênica. Uma sociedade onde:
· povo tenha suas necessidades básicas
de moradia, alimentação, saúde,
educação, trabalho, transporte e
lazer, devidamente atendidas;
· a todos sejam garantidos os direitos
individuais e sociais e a participação
na construção do bem comum;
· todos, como sujeitos de sua própria
história, independentemente de etnia, cor,
religião, condição social,
idade e sexo, sejam aceitos, acolhidos, respeitados
e amados;
· cada um viva com o outro e para o outro
buscando, solidariedade, soluções
adequadas para as necessidades de todos;
· a organização social e
política seja assumida por todos como expressão
de cidadania;
· poder público esteja a serviço
de todos e não de uma minoria;
· os meios de comunicação
social estejam a serviço da verdade e da
informação democrática, atendam
ao interesse da população e sejam
por ela controlados;
· se defenda e se promova a vida em todas
as suas formas e estágios;
· a esperança do povo seja, constantemente,
alimentada pela conquista de condições
de vida cada vez mais dignas;
· acolham-se os valores da subjetividade,
da individualidade, da pluralidade e da gratuidade;
· haja compromisso com a solução
justa e pacífica dos conflitos e controvérsias;
· se dê ao trabalho, fonte de crescimento,
realização pessoal e de produção,
proeminência sobre capital;
· todos tenham plena liberdade de se associarem,
organizarem, de serem ouvidos e respeitados.
2.2.2 A Pessoa que queremos ver e ajudar
a formar
Optamos por uma pessoa, cuja compreensão
passa necessariamente por Jesus Cristo, no qual
todos somos imagem e semelhança de Deus
e irmãos e irmãs uns dos outros.
Em Jesus Cristo Deus se revelou como Trindade,
por isso, como relação, comunhão,
auto doação, na diferença.
Nessa realidade divina a pessoa fundamenta sua
experiência de convivência humana,
de solidariedade, de serviço aos pobres,
de respeito à vida, amizade fraterna e
vivência da fé.
Tal pessoa se reconhece:
· colaboradora de Deus, com a tarefa de
contemplar, humanizar, partilhar, respeitar a
obra da criação;
· sujeito construtor da história,
livre e solidário, capaz de amar mas também
de resistir e recusar;
· capaz de viver em comunidade o serviço
fraterno e a auto doação;
· superior a leis ou organizações
sociais, em força de sua dignidade;
· agente de sua própria cultura,
respeitando e aceitando valores de outras culturas;
· responsável pela construção
de um mundo democrático, justo, solidário
e fraterno;
· crítica, capaz de identificar
e desmascarar as ideologias impostas, sobretudo
pelos meios de comunicação social;
· capaz de conviver com os avanços
tecnológicos, humanizando-os em favor da
sociedade;
· apta a ligar a auto realização
à construção do bem comum
de comunhão social, oportunizando uma relação
emocional e afetiva;
· consciente de suas limitações,
mas também, de sua capacidade de libertação,
em reciprocidade, com as outras pessoas;
· em relação consigo mesma,
com a natureza, com o próximo e com Deus;
· comprometida com a causa da justiça,
dos direitos humanos, dos valores ecológicos
e da paz.
2.2.3 A Escola que queremos ser e ajudar
a construir
Sonhamos com uma escola profética, que
assuma a educação libertadora na
ótica de Medellín e Puebla. Esta
educação se caracteriza como aquela
que:
· desencadeia um processo em que educador
e educando sejam sujeitos de seu próprio
desenvolvimento, pessoal e social;
· antecipa, não só por seus
conteúdos, mas também pelos seus
próprios métodos e técnicas
a nova ordem social, imprimindo um sentido democrático,
comunitário e participativo às estruturas
educacionais;
· anuncia explicitamente Jesus Cristo,
numa dimensão de eclesialidade, na linha
expressa pelo objetivo geral e pelas diretrizes
da CNBB Nacional.
Isto
significa uma escola sempre comprometida. Com
duas direções bem claras:
A primeira é a crescente compreensão
da realidade, que possibilita às pessoas
acesso crítico à parcela do saber
humano, da ciência e das técnicas
acumuladas através das gerações,
e lhes ajuda a passarem da consciência mágica
ou ingênua para a consciência crítica.
Esta as habilita não só a constatar
a realidade, mas a descobrir as causas e as ideologias
que a possibilitaram. Pela consciência crítica
as pessoas descobrem que a realidade social foi
construída pelos homens e por eles pode
ser transformada. Descobrem, ainda, que a compreensão
da realidade se processa via conhecimento científico,
saber popular, poesia e fé.
A outra, a transformação da realidade
pela prática da justiça social e
uso responsável da liberdade, na perspectiva
da fé cristã. Esse compromisso manifesta-se:
· na prática de relações
democráticas, em todas as situações
humanas;
· no serviço à sociedade
em vista de sua transformação;
· no exercício da liberdade, que
requer um crescente amadurecimento afetivo, psicológico
e social, que supera o individualismo e a injustiça
no relacionamento humano, engaja na atuação
solidária de construção de
estruturas justa;
· na defesa da dignidade e dos direitos
de todas as pessoas.;
· na busca da felicidade em solidariedade
com os outros.
A
educação que as Escolas Medéias
assumem requer uma ampla ação profética
de denuncia e de construção.
Quanto à denuncia, a necessidade urgente
de desritualizar a educação, para
dar-lhe condições de “ser
para o homem” e não para a lei; de
ser libertadora, a fim de atender aquilo que é
fundamental a cada homem e a todos os homens em
cada momento; de ser criadora. Não é
possível, de fato, realizar ações
educacionais significativas se elas permanecerem
coniventes com uma legislação de
ensino e um certo pensamento formalista da sociedade
que encoraja e legitima uma situação
que força, de muitos modos, a ação
educativa a meramente cumprir um papel transmissor.
Quanto à construção, por
um lado, são opções fundamentais
no momento:
· trabalho comum com a participação
ativa, crítica e criativa de todos;
· diálogo permanente, que desmascara
e supera a oposição ou o confronto
entre os que sabem e os que nada sabem, entre
os que só ensinam e os que só aprendem,
entre os que detêm o poder e os que apenas
executam tarefas determinadas e prestam contas;
· processo de contínua aprendizagem,
apropriação comunitária dos
instrumentos de comunicação, de
conhecimento e análise de realidade e de
atuação, como condição
de participação;
· esforço permanente de pensar,
planejar e viver a ação educativa
a partir de uma escala de valores fundamentais
no Evangelho, na perspectiva do novo onde se buscam
os critérios que pautam as relações
interpessoais e pedagógicas, que orientam
a avaliação, os métodos a
serem utilizados e a seleção de
experiências a serem vivenciadas no processo
educativo;
· compreensão ampla e profunda do
sistema educativo escolar e de seus mecanismos,
em ligação com outras instituições
relacionadas à educação.
2.3 Marco Operativo
Reafirma-se o posicionamento e opção
de Homem, de Sociedade e de Educação,
assumidos no Marco Doutrinal, com os quais há
compromisso na perspectiva da Educação
Libertadora. Ela converte o educando em sujeito
do crescimento pessoal, tendo como conteúdo
a sociedade em que vive, com vistas a dar-lhe
condições de libertar-se de toda
a escravidão que o oprime e de realizar-se
como pessoa.
Assume-se a educação que considera
a realidade sócio-econômico-política
da pessoa, bem como suas crenças e seus
valores, suas possibilidades e seus limites. Tem
como característica especial o posicionamento
dialético, frente aos conflitos e contradições
pessoais e sociais.
O Colégio opta por uma educação
formal, na qual o Homem se realiza como ente histórico,
que se faz na história, na busca de sua
identidade e na relação consigo,
com o outro, com o mundo e com o transcendente.
Opta-se por um processo educativo que promove
constantemente, nos educadores e educandos, os
valores do bem, do justo, do verdadeiro, fraternidade,
bem comum, liberdade responsável, participação
criativa, respeito e serviço mútuo.
Assume-se comunitariamente o processo educativo
libertador que:
· converte o educando em sujeito de seu
próprio desenvolvimento;
· favorece a transformação
grupal através do respeito mútuo
e do diálogo da participação
e do engajamento, da liberdade e da fraternidade,
da igualdade e da liberdade;
· promove o senso crítico sobre
a realidade social, os objetivos, os conteúdos,
a metodologia e as relações das
pessoas entre si;
· fortalece a educação do
Bem Comum, da Cidadania;
· escolhe conteúdos socialmente
eficazes;
· revê, sistematicamente, seu currículo:
objetivos, conteúdos, metodologias e avaliação
de toda a ação educadora;
· adota a metodologia participativa, crítica
e criativa, em que todos se sintam comprometidos
com o planejamento, execução e avaliação
de suas atividades;
· prioriza a postura profissional consciente
e responsável;
· envolve a todos, segundo suas funções
e tarefas;
· provoca o assumir dos pais como “primeiros
e principais responsáveis pela educação
dos filhos”;
· adota, na sistemática de seu trabalho,
o processo de ação-reflexão-ação.
Opta-se
por uma escola democrática, caracterizada
pela socialização do poder, divisão
de responsabilidades, diálogo permanente
entre os membros da Comunidade Educativa, presença
espontânea nas programações
escolares, prática dos direitos e deveres.
Opta-se por uma avaliação diagnóstica,
somativa e cumulativa da aprendizagem, inspirada
na relação de fraternidade nas experiências
vivenciadas. O corpo docente e discente, estimulados
a realizarem freqüentes auto-avaliações,
têm participação e envolvimento
no planejamento e na provocação
de um processo interior de amadurecimento.
Assume-se a Educação de Qualidade,
que se manifesta na renovação dos
objetivos, dos programas e da metodologia, com
vistas a uma educação humana e cristã
mais eficaz, na construção coletiva
do saber e do agir, na priorização
da conscientização, na formação
sistemática dos educadores, na integração
dos segmentos e elementos, na vivências
dos valores evangélico-libertadores: verdade,
justiça, bondade, liberdade e fraternidade. |